quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Macacos do Chinês - Saudade

"Mais do que a ideia,
Gosto de deixar fluir,
Mais do que sentir,
Gosto da palavra,
E a forma como se entrelaça, com um sentimento de pertença,
Convidando o tempo para uma dança,
Gosto como a música nos leva para longe, sem sair do lugar,
E sentir que se eleva, lá do alto onde os vejos,
Conhecem a distância que nos separa,
E quanto pesa o desejo, de voltar, de saudadiar,
Quero tocar onde dizes que dói,
Preciso de descobrir, essa saudade que torce e mói,
Alimenta, ou nos destrói..."

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
In Movimento Perpétuo, 1956

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Fullness

...Fullness is being in the better company while alone in the deepest well, is being in perfect harmony with yourself, is not regretting anything you have done, is knowing what you are and what you aren't, is being You!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Não vejo a luz em mim, (...) só quis tocar o céu!





Devagar - Ornatos Violeta

se o vento não mudar
vou dar até sentir
que há uma razão para crer
que é bem melhor existir
não sei
não vejo luz em mim
tão pouco em mais alguém
só quis tocar o céu
não quero mal a ninguém
eu sei
diz-te a canção do medo
vê se um dia o tempo nos traz
mas perde a noção do tempo
quando eu amo é sempre devagar.

domingo, 19 de agosto de 2012

Ânsia de viver

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"
 Florbela Espanca

domingo, 5 de agosto de 2012

(Untitled) - parte 1


Vagueio sem rumo no oceano da vida, sou uma concha vazia agastada pelas ondas, um barco perdido levado pelas correntes do destino. Perdido em mim procuro-me lá fora, busco-me, busco-TE. Cego de amargura meu coração suspirava a cada leve brisa. Entregava-me completamente de alma e coração à mais pequena miragem, ao mais ínfimo vislumbre teu. Com a visão toldada apenas via o que queria, o que desejava ver, negando tudo o resto, negando a minha própria natureza. Via-te (ou projectava-te) em mascaras falantes, em folhas voando ao sabor do vento. E, de cada vez que o véu caía e via com olhos de ver, tu não estavas lá, nunca estiveste… 
Fechei-me em mim próprio longe dos olhares do mundo.

sábado, 28 de julho de 2012

Fecho os olhos…



Fecho os olhos…

Um tédio apoderou-se de mim, consome-me as forças vitais. Nem sequer me sinto vazio, não me sinto.

Abro os olhos…

Olho-me ao espelho e não me reconheço, procuro de todos os ângulos uma explicação para este torpor, mas o reflexo continua imutável, mudo e frio.

Fecho os olhos…

Vejo o vazio, uma noite sem estrelas… Uma sombra paira sobre mim, entorpece-me o corpo, seca-me os lábios, tento gritar mas nenhum som me sai da garganta.

Abro os olhos…

No meio da multidão sinto-me só

Fecho os olhos…

Nada

Abro os olhos…

Nada…

Fecho…

Abro…

Fecho…


Durmo que não sou, no dia que não foi dia…

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tempestade


Diz-se que depois da tempestade vem a bonança, creio que depois da bonança vem a tempestade, sendo esta tão ou mais necessária que a bonança, servindo-lhe como ponto de comparação e dando-lhe sentido.

Não existe o Homem Feliz, sem a tristeza, os desgostos e as lutas, a felicidade deixaria de existir, apoderar-se-ia do Homem um não sentir, uma indiferença de viver. O Homem não seria mais Homem, seria um espectro sem forma, não passaria de uma sombra numa noite sem lua...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

“The Meaning of Life”


Porque sou eu agora e não noutra época? Porque nasci quando nasci e não noutra altura, poderia eu ter sido outra pessoa? Até que ponto estará a minha consciência ligada a este corpo?

O que é a nossa consciência? A nossa alma, alguns diriam. Não somos mais que as conexões existentes entre os nossos neurónios, logo, eu não existo neste corpo, eu sou este corpo, sendo irrelevante pensar em nós noutra realidade que não a que vivemos (outro corpo, outro tempo, etc…). Mas como vimos a este mundo? Como ganhamos consciência? Existirá a nossa alma à espera que o nosso corpo nasça, continuando a existir depois deste, tendo como destino uma eternidade dependente das nossas acções na terra? Quando começamos a ser nós? Este momento zero parece impossível de definir, talvez o seja mesmo. Hoje não sou exactamente o mesmo que era há dois dias, muito menos há dois anos. Não sendo mais que as conexões entre neurónios, podemos considerar que começamos a ser nós próprios quando os primeiros neurónios se começam a desenvolver e a interligar-se, ainda no ventre. Aí começa a nossa diferenciação, se o nosso corpo, a nossa aparência são definidos pelos nossos genes, estes também vão influenciar e definir os nossos neurónios e suas conexões, definindo-nos a um nível inicial, mais tarde factores externos como a sociedade, a cultura, a educação, etc… e depois, a um nível mais elevado, as nossas escolhas, decisões e acções continuarão s definir-nos e, à medida que crescemos vamo-nos aproximando do verdadeiro Eu, do supremo Eu. Até que o nosso corpo morre e com ele a nossa consciência, acaba-se tudo para nós.

Qual é então o significado da vida, porque temos que praticar o “bem”, que sentido tem nascer, viver e morrer sabendo que depois não há nada, que nenhum ser superior nos julga e nos recompensa ou castiga conforme as nossas acções?

“Quando lhe disse: «Que quer que faça da sacralidade das tradições, se vivo plenamente no interior de mim mesmo?», o meu amigo sugeriu-me: «E se esses impulsos vierem de um plano inferior e não superior?» Então respondi-lhe: «Não me parece, mas se eu for filho do Demónio, pois bem, viverei de acordo com ele.» Para mim nenhuma lei pode ser sagrada, a não ser a lei da minha própria natureza.”
 Ralph Waldo Emerson

Temos que ser os nossos próprios Deuses, confiar em nós como os nossos próprios juízes. O sentido da vida, a verdadeira felicidade está em cada um de nós. As nossas acções são os nossos anjos e demónios, guiando-nos na demanda do Eu verdadeiro, de Deus. Há-que seguir integro nesta busca, “Nada, em definitivo é sagrado, a não ser a integridade da nossa própria mente.”  Há-que viver a vida ao máximo, viver, fazer, experimentar, não abdicando dos nossos princípios nem prejudicando o próximo. Para que quando “fores de noite e ao fim da estrada” possas olhar para trás sem mágoa ou arrependimento e que te vás com um sorriso nos lábios.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ode


Pôr em palavras o que nos vai na alma parece-me uma fútil tarefa, nem todas as palavras de todas as línguas e dialectos chegariam para exprimir o que se sente. Sente-se, Sinto. Sinto uma inquietação, um desassossego. Quem será que não quer dormir em mim? “Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, (…) e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem?”

Querer, desejar, sentir; quem quer, quem deseja e quem sente? Sou eu a soma de inúmeros? O Homem é a soma dos seus actos, não dos seus quereres, desejos e sentimentos, “um labirinto de si mesmo.” Numa encruzilhada somos para onde vamos, não onde paramos e pensamos para onde ir. Não me arrependo do caminho que tomei, apenas das paragens que fiz e dos caminhos que não tomei. Quero viver, fazer, experimentar, mas sou eu que quero, desejo e penso, ou outros que vivem em mim? Os pensamentos são traiçoeiros, como ervas daninhas que desprezamos, não alimentamos, estão sempre lá, umas vezes ocultos, outras omnipresentes. Há-que “enfrentá-los”, olhá-los de frente. Quem sabe se não se transformam numa árvore que dá frutos (talvez sempre o foram), ou morrem, transformam-se em cinzas (se é que nunca o foram).

Um desejo? Um pensamento? Um Querer? Uma erva daninha resistente, quanto mais a ignorava mais crescia, arrancava-a da terra, mas em vão, às raízes não chegava eu. Enfrentá-la? Não, que estupidez! É errado. Mas o que é certo ou errado? Acaso sei eu sem nunca o ter vivido? Enfrentá-la-ei! Sem embaraço nem ideias pré-concebidas de certo ou errado…

O que ficou foram cinzas, um sabor amargo na boca, amargo e doce. Amargo por ter feito o que fiz, não sendo eu (sempre eram cinzas). Morreu! Não era eu mas outro eu agora morto. Doce por ter suprimido este outro eu que não era eu.

À medida que avançamos no labirinto, inúmeros eus vão ficando para trás, morrem no caminho, ou talvez sempre estiveram mortos, à espera que cortasse as correntes que nos uniam, pesos mortos que nos impedem de avançar na descoberta do Eu verdadeiro.

Hoje estou mais leve, mais perto de mim, mas as marcas das correntes e o sabor amargo na boca ficam para sempre, para que não nos esqueçamos daquilo que não somos enquanto avançamos na descoberta do que somos.

“Que serás quando fores de noite e ao fim da estrada”