quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ode


Pôr em palavras o que nos vai na alma parece-me uma fútil tarefa, nem todas as palavras de todas as línguas e dialectos chegariam para exprimir o que se sente. Sente-se, Sinto. Sinto uma inquietação, um desassossego. Quem será que não quer dormir em mim? “Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente, (…) e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem?”

Querer, desejar, sentir; quem quer, quem deseja e quem sente? Sou eu a soma de inúmeros? O Homem é a soma dos seus actos, não dos seus quereres, desejos e sentimentos, “um labirinto de si mesmo.” Numa encruzilhada somos para onde vamos, não onde paramos e pensamos para onde ir. Não me arrependo do caminho que tomei, apenas das paragens que fiz e dos caminhos que não tomei. Quero viver, fazer, experimentar, mas sou eu que quero, desejo e penso, ou outros que vivem em mim? Os pensamentos são traiçoeiros, como ervas daninhas que desprezamos, não alimentamos, estão sempre lá, umas vezes ocultos, outras omnipresentes. Há-que “enfrentá-los”, olhá-los de frente. Quem sabe se não se transformam numa árvore que dá frutos (talvez sempre o foram), ou morrem, transformam-se em cinzas (se é que nunca o foram).

Um desejo? Um pensamento? Um Querer? Uma erva daninha resistente, quanto mais a ignorava mais crescia, arrancava-a da terra, mas em vão, às raízes não chegava eu. Enfrentá-la? Não, que estupidez! É errado. Mas o que é certo ou errado? Acaso sei eu sem nunca o ter vivido? Enfrentá-la-ei! Sem embaraço nem ideias pré-concebidas de certo ou errado…

O que ficou foram cinzas, um sabor amargo na boca, amargo e doce. Amargo por ter feito o que fiz, não sendo eu (sempre eram cinzas). Morreu! Não era eu mas outro eu agora morto. Doce por ter suprimido este outro eu que não era eu.

À medida que avançamos no labirinto, inúmeros eus vão ficando para trás, morrem no caminho, ou talvez sempre estiveram mortos, à espera que cortasse as correntes que nos uniam, pesos mortos que nos impedem de avançar na descoberta do Eu verdadeiro.

Hoje estou mais leve, mais perto de mim, mas as marcas das correntes e o sabor amargo na boca ficam para sempre, para que não nos esqueçamos daquilo que não somos enquanto avançamos na descoberta do que somos.

“Que serás quando fores de noite e ao fim da estrada”